terça-feira, 28 de outubro de 2014

Para oposição, Dilma terá dificuldade no Congresso; base pede diálogo

Reeleita em uma disputa acirrada contra o tucano Aécio Neves, a presidente Dilma Rousseff deverá ter dificuldade para lidar com deputados e senadores nos próximos quatro anos, segundo avaliação dos parlamentares da oposição ouvidos pelo G1. Os congressistas que integram a base aliada, por outro lado, pedem "diálogo" e disseram que será preciso "união".
Dilma venceu as eleições deste domingo com 51,64% dos votos válidos, contra 48,46% obtidos por Aécio Neves. A apertada diferença entre os dois, aliada à pulverização de partidos na próxima legislatura, mostram, segundo o senador e líder do DEM, Agripino Maia (RN), que Dilma deverá ter dificuldades em lidar com o Parlamento.

"O Brasil agora foi dividido, metade do país se aliou ao nosso projeto, pediu mudança. Por isso, a legitimidade do mandato dela é relativa", destacou Agripino, que coordenou a campanha de Aécio Neves.
PT e PMDB, principais aliados do Palácio do Planalto, continuam com as maiores bancadas na Câmara dos Deputados e no Senado Federal, mas perderam cadeiras nas duas Casas em relação ao total de eleitos em 2010 e também em relação à bancada atual.
O partido de Dilma tinha 88 deputados federais no início dessa legislatura e terá 70 no próximo ano. O PMDB também caiu de 79 para 66 deputados. No Senado, PMDB e PT perderam duas cadeiras cada um, ficando com 18 e 12 senadores respectivamente. O número de partidos com representação na Câmara cresceu de 22 para 28.
O vice-líder do governo no Senado, Jorge Viana (PT-AC), reconhece que a pulverização dos partidos será um "complicador" para Dilma Rousseff, que terá dificuldade em aprovar projetos defendidos durante sua campanha, como a reforma política. O petista, porém, disse que a solução estará no "diálogo" com o Planalto.
"Será um desafio tremendo, mas é um novo governo, uma nova esperança e eu espero que haja mais diálogo nosso com o Palácio para se ter uma agenda que atenda às expectativas do país. Isso será bom para o próprio Congresso, que tem perdido o prestígio", avaliou o senador acreano.
O líder do PMDB na Câmara, Eduardo Cunha (RJ) – cotado para substituir Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN) na presidência da Câmara – disse que, como qualquer presente eleito, a petista tem "condições e representatividade" para emplacar propostas no Congresso.
Para o deputado – que no ano passado liderou o chamado "blocão" (grupo da base aliada insatisfeito com o Palácio do Planalto) – a boa relação de Dilma com os parlamentares vai depender da sua disposição em "dialogar". Ele lembrou que a oposição no Senado estará "mais qualificada", devido à entrada de José Serra (PSDB-SP), Tasso Jereissati (PSDB-CE) e Antonio Anastasia (PSDB-MG).
"É claro que a oposição dará mais trabalho, mas dependerá da disposição de diálogo dela para superar divergências", afirmou Cunha.
Para o deputado Arlindo Chinaglia (PT-SP), que foi líder do governo até junho deste ano, se os partidos que apoiaram Aécio no segundo turno se mantiverem unidos, "será uma oposição bem maior do que havia durante o primeiro mandato". Porém, o "simples fato" de ter aumentado o número de partidos na Câmara não implica "automaticamente" em maior dificuldade no diálogo com o Executivo. "Pequenas bancadas tendem a formas blocos", lembrou.
Para o líder do PPS, Rubens Bueno (PR), a "expressiva votação" alcançada pela oposição no Congresso e também nos estados confere mais "responsabilidade" e "força política". "Estaremos [oposicionistas] mais encorpados, mais reforçados. Vamos cobrar as grandes reformas. Vamos continuar com 39 ministérios para abrigar o PT? Vamos continuar pagando tanto imposto para bancar um governo perdulário?", provocou o parananese.
O líder do PSDB na Câmara, Antônio Imbassahy (BA), disse que Dilma "mostrou no primeiro mandato que não foi uma líder capaz de fazer as transformações esperadas". "Ela comprovou que não tem liderança para fazer transformações, por isso vai ter dificuldades enormes. A Dilma não é conciliadora, não é agregadora", opinou o tucano.
Imbassahy destacou ainda o quadro desfavorável da economia no próximo ano. "Ela fez uma das piores gestões de toda a história da República do ponto de vista da economia e vai ter grandes dificuldades para colocar o país no trilho. Ela descarrilhou o país", afirmou.
Chinaglia disse que, para aprovar projetos complexos como a reforma política, Dilma sabe que terá de debater com o Congresso e com a sociedade. "Ela sabe que não é o papel dela sozinha", afirmou. "Além disso, ela pode mobilizar sua base, mas a palavra final será sempre do Congresso".