quinta-feira, 14 de agosto de 2014

O sonho que a tragédia interrompeu


Deputado federal, ministro de Estado, governador de Pernambuco, candidato a presidente da República e um trágico acidente. O Brasil perde um dos mais promissores líderes políticos de sua geração
O roteiro original da quarta-feira previa a participação em um evento da revista Exame, na capital paulista. Mas o desejo de cumprir uma “agenda de rua” fez com que, dias antes, o ex-governador de Pernambuco e candidato à Presidência da República Eduardo Campos (PSB) mudasse de planos. A decisão foi seguir para Santos, no litoral de São Paulo. Já perto de chegar ao destino, a tragédia: o jato que levava Campos, quatro pessoas de sua equipe e dois pilotos caiu em uma área residencial da cidade, interrompendo de forma súbita seu projeto de chegar ao topo do poder Executivo no País.



A aeronave havia decolado no aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro, com destino à base aérea de Guarujá. Ninguém sobreviveu. Eduardo Campos, de 49 anos, morreu no dia 13 de agosto, mesma data em que, em 2005, seu avô Miguel Arraes, também ex-governador de Pernambuco e também ex-presidente nacional do PSB, falecia aos 88 anos.
O presidenciável – que aparecia em terceiro lugar nas pesquisas, com 8% dos votos – participaria de três atos de campanha na Baixada Santista, um dia após ter estado no Rio para entrevistas ao Jornal Nacional, da Rede Globo, e ao Jornal das Dez, do canal GloboNews.

A última noite de Campos foi em Copacabana, jantando na companhia da mulher, Renata, e do filho caçula, Miguel, de sete meses, que ficou dormindo no carrinho de bebê parte do tempo.

Após deixar as emissoras, Campos chegou por volta de 22h30min ao restaurante do hotel Sofitel, onde estava hospedado. Os garçons juntaram duas mesas para acomodar o grupo de sete pessoas no deque de madeira do lugar, com vista para a Praia.

A capital de Pernambuco parou quando as primeiras notícias sobre o acidente com o avião Cessna 560XL se espalharam. A reação dos moradores era de apreensão e incredulidade. A administradora Maria do Carmo Barbosa conta que assistia à missa na igreja Nossa Senhora do Paz, no bairro de Afogados, quando o padre recebeu um bilhete sobre a morte de Campos e interrompeu a celebração. “O padre estava de pé e, nesse momento, passou mal e lhe ajudaram a sentar”, contou. A notícia foi transmitida aos fiéis pelo ajudante do padre. “Teve gente que começou a chorar, foi um clima de comoção total”, afirmou.
Momento de dor
O vice-presidente do PSB, Roberto Amaral, considerou que Eduardo Campos “vivia o auge de sua brilhante carreira política” . Renata Campos, mulher de Eduardo Campos, procurou manter uma atitude de firmeza diante dos cinco filhos e das dezenas de familiares, políticos e amigos que estiveram ontem na casa da família, na zona norte do Recife.

Pessoas que estiveram com ela dizem que Renata se mantinha serena - no início da noite, contudo, era possível vê-la pelo muro da casa com ar de choro. “Não estava no script”, dizia Renata a quem a abraçava.

O velório deverá ser realizado no Palácio do Campo das Princesas, sede do governo pernambucano. O enterro será no cemitério de Santo Amaro, no centro do Recife. Ele será sepultado no túmulo onde está o avô, Miguel Arraes (1916-2005). (Hébely Rebouças - hebely@opovo.com.br, com agências de notícias)
Cronologia
 1985.
Construção do líder. Na Universidade Federal de Pernambuco, é eleito presidente do Diretório Acadêmico da Faculdade de Economia. Iniciava ali a militância política. 

1986.
Vida em campanha. Campos desiste de fazer mestrado nos Estados Unidos para participar da campanha que elegeu seu avô, Miguel Arraes, como governador de Pernambuco. 
 1987.
Cargo no governo. Vira chefe gabinete do avô. Ajuda a criar a Secretaria de Ciência e Tecnologia do Nordeste Fundação de Amparo à Ciência e Tecnologia de Pernambuco (Facepe).
 1994.
Parlamento. Filiado ao PSB, se elege deputado federal, mas depois se licencia para ser secretário da Fazenda de Arraes. Em 1998, é o deputado federal mais votado de PE.

2004.
Governo Lula. É convidado para ser ministro de Ciência e Tecnologia do Governo Lula, de quem ele foi articulador político no Congresso Nacional.

2006.
Governador. Disputa e vence as eleições para o Executivo em seu estado natal, tendo sido reeleito quatro anos depois. Em 2010, venceu em primeiro turno com 82% dos votos válidos.
 Abril de 2014.
Decisão marcante. Campos deixa o governo de Pernambuco para disputar a Presidência da República em oposição ao Governo Dilma Rousseff (PT), de quem ele foi aliado.

12/8/2014.
Última entrevista. Ao se despedir da equipe do Jornal Nacional, na noite anterior ao acidente, Campos seguiu em direção à saída do estúdio, dizendo: “Vejo vocês no segundo turno”.
Fonte: OPOVO.COM